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segunda-feira, 8 de abril de 2019

No portão do Wolmar Salton, os novos donos pintaram um agressivo “PROPRIEDADE PARTICULAR, NÃO ENTRE”, que deve massacrar o coração dos mais antigos. Ao lado, nas paredes externas, um torcedor respondeu, gritando com tinta: “O GAÚCHO JAMAIS MORRE”

Lédio Carmona O Gaúcho Jamais Morre
02.08.2011

Recebi de Alexandre Perin a indicação para ler um texto publicado no excelente blog Impedimento. Na emocionante série Los de Abajo, Iuri Müller e Maurício Brum contaram a saga do Sport Club Gaúcho. Lutando para sobreviver depois de ter fechado as portas e perdido seu estádio, o simpático time de Passo Fundo é um emblema do que vem acontecendo com clubes que apesar de pequenos, são tradicionais e guardam belas histórias de um futebol autêntico e feito com paixão. Um dos ídolos do Gaúcho foi o falecido centroavante Bebeto, nesta foto com a camisa do Caxias. Bebeto tinha lugar certo nos gols da rodada e está na memória de quem acompanhava futebol nos anos 70.

Certa vez estive em Passo Fundo para fazer um perfil de Felipão. Infelizmente Bebeto havia falecido há pouco, e não pude tomar seu depoimento. Mas fui ao estádio que aparece no post do @impedimento. Ao contrário de hoje, era realmente um estádio, e não esses escombros tomados pelo mato. Daqui, torço pela reação do Gaúcho. Debaixo do matagal que toma o campo do estádio Wolmar Salton, repousam histórias do bom e guerreiro futebol do sul do país. Força, Gaúcho. Que você, realmente, não morra jamais.


LOS DE ABAJO  SC - Gaúcho 
08.02.2011

Por que trouxe para a minha casa a sede do Gaúcho? Por que assumi a equipe na situação mais complicada da história? Por que abri mão da minha vida familiar, do sono e da tranquilidade? Tudo por causa daquele chute do Bebeto. O Wolmar Salton estava lotado, a partida era contra o Grêmio, que até ali ganhava. Até que o Serginho escapou pela direita e cruzou para a meia-lua, onde estava o Bebeto. Ele pegou de canhota e empatou o jogo. O estádio inteiro fez um instante de silêncio. Nunca vou esquecer do som da bola batendo na rede. É por essa lembrança que eu faço de tudo pelo Gaúcho.”

O diabo não nos deixou nem o pão


Quando Gilmar Rosso entrou na sala do presidente da Federação Gaúcha de Futebol, Francisco Novelletto, para recolocar o Sport Club Gaúcho de Passo Fundo na lista de participantes da Segundona de 2010, não imaginava que seria recebido com tamanha indiferença. Trazia consigo uma penca de questionamentos e uma pretensão. Mas o Novelletto das agendas lotadas não tinha tempo para as dúvidas do presidente do Gaúcho. Limitava-se a recusar a inscrição do clube passo-fundense: sem um campo próprio para atuar desde 2007, o time não apresentava qualquer garantia para a FGF de que se manteria até o final do certame.

“Estou tentando não deixar morrer noventa e um anos de história. Se você não quiser me ajudar, paciência, mas eu vou até pela via judicial para botar o Gaúcho em campo”. Novelletto respondeu prontamente, com um prazo curto: “o Gaúcho tem uma semana para arranjar um estádio”. Aproveitando o encontro, Rosso tentou discutir sobre o futuro do interior – mas compromissos mais importantes aguardavam o mandatário do futebol gaúcho. Sem dar conversa, o presidente da Federação se dirigiu à saída da sala e apenas frisou o que dissera anteriormente: “vocês têm uma semana para conseguir um estádio para jogar”.



Como se fugisse de um grande desastre em direção às montanhas, o Gaúcho montou a sua barraca de lona preta no Estádio Municipal de Marau, a quarenta quilômetros de Passo Fundo. Foi um recomeço integral: longe de uma casa que não era mais sua, o Gaúcho não cobrava ingresso, embora uma caixinha de doações passasse pelas mãos dos torcedores dispostos a colaborar com o clube. No mesmo molde de solidariedade, o médico e o preparador físico chegaram a se plantar atrás do gol e atuar como gandulas. “Por mais difícil que tenha sido, me emocionei com aquela cena. Era um médico renomado e um professor universitário de coletes, repondo a bola para o goleiro do Gaúcho”.

A ida para Marau tem uma causa antiga. Há quinze anos, um acidente nas piscinas do Wolmar Salton deixou um garoto tetraplégico e dependente de um caro tratamento. O clube deveria pagar uma pensão ao menino e, de acordo com o advogado da família, não teria cumprido com os valores determinados. Em 2007, poucos meses depois do rebaixamento do Gaúcho para a Segundona, o patrimônio físico do time foi à leilão e acabou arrematado pelo próprio advogado, em nome da família do garoto. Na época, pretendia-se negociar com uma rede de supermercados a venda de toda a área. A ação que impediu o provável fim do estádio foi o tombamento do Wolmar Salton, feito pela prefeitura de forma providencial.


Desde então, o caso tramita na justiça sem que haja acordo entre o clube e o advogado. O próprio Gilmar Rosso, que também é empresário e professor universitário, tentou negociar o aluguel do estádio para as partidas do Gaúcho na Segundona. Em contrapartida, zelaria pela conservação da área, proposta que foi negada pelos atuais detentores do terreno. Hoje o Wolmar Salton é uma floresta com duas goleiras fincadas. Não fossem as metas, nada indicaria que aquele pedaço foi, um dia, um campo de futebol profissional. Com exceção das cadeiras do pavilhão social, tudo foi roubado por vândalos – e o local passou a ser usado como abrigo por sem-tetos e visitado por dependentes químicos. Os estragos resultaram em um estádio com todas as aberturas lacradas e inteiramente entregue às intempéries do destino.

A desolação da velha cancha do bairro Boqueirão faz com que o espírito de um antigo ponteiro-direito se encha de tristeza quando recorda os dias vividos lá dentro. Meca, de 72 anos, preenche algumas das fotos mais famosas da história do Gaúcho. Numa do fim dos anos sessenta, quando o Gaúcho já se fazia presente na primeira divisão, Meca é o segundo agachado, embaixo dos irmãos João e Daison Pontes. O ex-ponteiro, hoje transformado em fixo no futebol de salão dos fins de semana, guarda em sua casa um material que conta uma parte valiosa do futebol da cidade. Desde seu início pelo extinto 14 de Julho, ao acesso com o Gaúcho e as temporadas na elite, há registros fotográficos e uma enorme lista com todas as partidas disputadas pelo jogador.

Américo de Oliveira é amigo pessoal de Daison Pontes, com quem fazia tradicional dupla no carteado. “‘Eu só jogo se for com o Meca’. O Daison brigava mesmo com todo mundo, menos comigo”, contou, imitando a voz rouca do histórico zagueiro. E para Américo, não havia nada de absurdo na virilidade que deu fama a Daison por todo o estado: “ele jogava atrás, queriam o quê?”. Naquele mesmo retrato, ao lado direito de Meca, aparece o já falecido Bebeto, o Canhão da Serra, lembrado por ele com saudade: “ele chutava tudo, até toco. Tanto que às vezes aparecia com o pé machucado para treinar”. Hoje viúvo e morando sozinho nos fundos da casa de uma das filhas, Meca não acompanha mais o futebol local. Das coisas do seu tempo, porém, tem inúmeras fontes para consultar o que a memória levou para sempre.

Se naqueles anos sessenta se dizia que sobreviver ao Wolmar Salton era necessário para formar o campeão gaúcho, na atualidade faltam um campo e uma equipe a temer. Com oficiais de justiça batendo à porta com cobranças, o presidente Gilmar Rosso fez de um escritório em sua casa a sede transitória do Gaúcho que, em 2011, vai atuar no Vermelhão da Serra, do seu rival-moderno Passo Fundo. Na apressada reunião da FGF que definiu o novo regulamento da Segundona em trinta minutos, a única voz a propor alguma alteração foi a de Rosso – que pediu na sua chave o Atlético de Carazinho, distante apenas quarenta quilômetros de Passo Fundo, no lugar que era do Riograndense de Santa Maria, situada a quase trezentos. A troca foi pedida não só pela diferença de nível técnico entre as equipes, mas para evitar os gastos de uma viagem longa, que em 2010 custou ao Gaúcho cerca de quatro mil reais.


Quando o inverno apertar no sul, é possível que o Gaúcho nem esteja mais vivo na Segundona. A lógica, a folha de pagamentos de doze mil reais e a inexistente estrutura do clube indicam que o limite pode ser a primeira fase. Com teto salarial em seiscentos reais, o clube explicita que não tem pretensão – e hoje não faz questão – de subir. Seguir na segunda divisão já valeria o ano. A questão é manter o Gaúcho vivo: “torcida você não faz da noite para o dia. Torcida se cria com os anos. Com o pai, com o avô, com o bisavô. Com filhos. E não com dinheiro”, crê Rosso. No portão do Wolmar Salton, os novos donos pintaram um agressivo “PROPRIEDADE PARTICULAR, NÃO ENTRE”, que deve massacrar o coração dos mais antigos. Ao lado, nas paredes externas, um torcedor respondeu, gritando com tinta: “O GAÚCHO JAMAIS MORRE”.

Iuri Müller e Maurício Brum




Links 
Lédio Carmona 
Blog Impedimento 
http://impedimento.wordpress.com/2011/02/08/los-de-abajo-s-c-gaucho-2/



quarta-feira, 3 de abril de 2019

Assim foi Construído ..... Time Lapse

Há 3 anos era Inaugurada a

Arena do GAÚCHO / Wolmar Salton

Um sonho permeado de esperança ,registro de muita luta e símbolo de ideais nunca vencidos.

Tenho de agradecer a todos que nos incentivaram nessa "loucura".

Agradecimento especial aos Engenheiros e Arquiteta que ajudaram,de forma gratuita e aguentaram a minha "chatice" diária : 
Eng. Jorge Rossato ,Eng Leonardo Hallwass,Eng Jefferson De Conto ,Arq Lara Martinuzzi Rosso . 
Nosso muito brigado .
Fotos: Arquivo Pessoal Gilmar Rosso







quarta-feira, 6 de março de 2019

Era um Elefante .......

Ginásio Teixeirinha entregue oficialmente ao Gaúcho

De papel passado.
Há 4 anos , SC GAÚCHO assume o Ginásio Teixeirinha

" O elefante branco Agora é Verde "

O conhecido Ginásio Teixeirinha tem uma história com polêmicas proporcionais a sua própria imensidão. Concebido ainda nos anos 1990, sua construção atravessou três administrações municipais. Somente foi inaugurado em 22 de dezembro de 2004. Depois, com pouco uso e o registro de falhas ou problemas no prédio, passou à condição de “elefante branco”. 
Em 2013 foi interditado pela Prefeitura de Passo Fundo e, mais tarde, colocado para concessão de uso público através de edital. O Sport Clube Gaúcho surgiu como único candidato para assumir o prédio. Isso, claro, pelo fato de estar construindo a sua nova casa, a Arena Wolmar Salton, exatamente nos fundos no Teixeirinha. “Não ganhamos nada, apenas nos habilitamos dentro da lei das concessões”, deixa claro o presidente do Gaúcho.

O elefante verde

“A reforma começa pelo telhado”, diz o presidente Gilmar Rosso. A proposta é garantir condições de trabalho em dias de chuva. Em dois pontos o telhado está danificado e necessita uma reforma e novas folhas para cobertura. “Tem ainda algumas goteiras, em torno de oito pontos, que também vamos arrumar”. Ontem à tarde, durante a chuva, foi fácil identificar esses problemas. Além das pequenas goteiras nas arquibancadas, há um buraco maior num canto do ginásio e outro um pouco menor na entrada. Depois do telhado, o cronograma prevê a derrubada das paredes externas decorativas, onde os tijolos a vista serão substituídos por uma cobertura em aluzinco. A reforma na parte elétrica certamente será a mais onerosa. Os cabos subterrâneos, que ligavam a cabine de força ao ginásio, foram ‘cirurgicamente’ arrancados. Há outros pontos depredados que também necessitam de reparos. E não falta sujeira no cenário, onde por enquanto os artistas são apenas os incontáveis cães que lá foram abandonados.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Era Assim......


Como foi feito .......





https://www.facebook.com/pg/sportclubgauho/photos/?tab=album&album_id=618112214925736&__tn__=-UCH-R

domingo, 23 de setembro de 2018

Não esquecemos .

Na Memória .....NA HISTÓRIA ....

BEBETO .

Sempre lembrado por nós. 
Ficaram na memória dos muitos que os viram, e jamais as esquecerão .
Poucos fizeram tantos e tão belos gols como Bebeto. 
Seu chute potente e certeiro lhe valeram o apelido de "canhão da serra" Batia na bola sempre de primeira, de voleio, de sem-pulo, de bate-pronto, não dando a mínima chance de defesa aos goleiros. 
Eternizado na Calçada da Fama FGF
Nascimento: 7 de setembro de 1946,
Falecimento: 19 de setembro de 2003





quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Eu Sou Gaúcho ...

" Eu sou do sul
É só olhar pra ver que eu sou do sul
A minha terra tem um céu azul
É só olhar e ver .....

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

De Cima ....

Brasil Visto de Cima . 

Episódio do Norte do Rio Grande do Sul do programa Brasil Visto de Cima, exibido no dia 27 de março no canal Mais Globosat.

Minuto 9:10 mostra a Arena e o Ginásio Teixeirinha . 

Link do Vídeo
https://t.co/7n9bKWPGdB




sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Pra Sempre ......

Nossos Ídolos não Morrem .....

ROBERTO 
Quando me perguntam quem era Roberto, respondo de pronto : O nosso Zidane !! Simples assim ... 
Jogava fácil ,falso lento , tocava na bola como se estivesse brincando .... 
UM Herói da minha seleção : Nadir ,João Pontes ,Daison Pontes , Lívio e Luis Carlos, Raul e ROBERTO , Luis Freire, Meca,Bebeto e Serginho


Foto Larry Rodrigues Moraes 
Em Pé : Ronaldo ,Mujica ,Brito,Moro ,Maurilio, Jair 
Agachados : Larry, Téio,Tarcisio, ROBERTO ,Toninho

Em tempo :
Devido nossa ausência nos últimos dias , deixamos de prestar algumas homenagens aos que nos deixaram e fazem parte da história Centenária do Gaúcho.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

" Só Vou porque a Grama é VERDE .....

Prezados ,
Não poderia deixar passar em branco ,mesmo tardiamente , uma homenagem a esse grande torcedor do Gaúcho . 
Essa foto foi tirada ,Abril de 2010 ,quando da entrega das chaves do Carro sorteado. O sr Juca foi o ganhador. 
Juntamente com Jorge Rossato , fomos entregar o carro , falamos que ele tinha a opção de receber o carro ou em dinheiro. Nos pediu que fizesse um cheque , quando fui colocar o valor do carro mandou parar, " Presidente, coloque no cheque somente 60 % do valor , o restante fica para o Gaúcho" . 
ELE com certeza tem um grande pedaço da reconstrução do Clube. 
Vá com Deus seu JUCA .Nosso muito obrigado por nos ajudar .

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Nota Esclarecimento

NOTA DE ESCLARECIMENTO 


O Sport Clube Gaúcho vem a público esclarecer e informar a respeito da ação que corre no Tribunal de justiça Desportiva quanto a inscrição de atleta irregular. O SC Gaúcho no dia 04.04.2018 solicitou a transferência do atleta da Federação Catarinense e informou que o contrato seria ,COMO REGE A LEI , de 90 dias. Nosso advogado já está com a documentação para nos defender . Nesse momento, não é e nem será de procurar o responsável de quem fez ou deixou de fazer. 
A RESPONSABILIDADE É DO PRESIDENTE DO CLUBE .

Assinado : Gilmar Rosso - Presidente Sport Clube Gaúcho

sexta-feira, 6 de julho de 2018

É DECISÃO...

Faltam 3 Jogos para Subir .

Domingo é o 1º jogo. 
Com Sol , Chuva , Neve ,Jogos da Copa .....
Lugar de Torcedor do Gaúcho é na BSBios Arena 

domingo, 24 de junho de 2018

Pra Sempre ....

Ídolos Não Morrem .....
Daison morreu em casa, no dia 23 de junho de 2012, a pátria gaudéria de chuteiras perdeu um de seus maiores expoentes históricos. O eterno zagueiro Daison Pontes, irmão de João e Bibiano, se despediu dessa vida aos 72 anos, vitimado por um AVC. Seu desejo era ser enterrado com o uniforme do Gaúcho. Se foi, não sabemos. Ao menos a bandeira verde estava lá sobre ele. Para marcar seu passamento, recuperamos o belo texto de Maurício Brum, de março de 2010.


Daison não morre
26 de junho de 2012


Na tarde do último sábado (23), a pátria gaudéria de chuteiras perdeu um de seus maiores expoentes históricos. O eterno zagueiro Daison Pontes, irmão de João e Bibiano, se despediu dessa vida aos 72 anos, vitimado por um AVC. Seu desejo era ser enterrado com o uniforme do Gaúcho. Se foi, não sabemos. Ao menos a bandeira verde estava lá sobre ele. Para marcar seu passamento, recuperamos o belo texto de Maurício Brum, de março de 2010.

“O espírito Gaúcho não morre

“Hoje vai dar Gaúcho”. Torcedores são palpiteiros. Torcedores acertam e clamam aos ares que foram profetas. Torcedores erram e ignoram o que disseram antes de a partida começar. Ou botam a desculpa na má atuação de algum ou outro jogador. Torcedores comuns não têm qualquer poder em suas palavras quando preveem um resultado. Atiram verbetes no vácuo e, bem, torcem. Mas quem dizia aquilo era Daison Pontes.


Houve um tempo em que nenhum time poderia se julgar merecedor de reinar no Rio Grande do Sul sem sobreviver ao teste de Passo Fundo. Eram os anos sessenta, o estadual havia acabado de trocar o formato das fases regionalizadas por um torneio longo, próximo do que se tem hoje, e o Sport Club Gaúcho passara a ser figura cativa na elite do Estado. Daison fazia dupla com seu irmão, João Pontes, e juntos os dois formaram a mais temida defesa do interior.

Antes da criação dos cartões de advertência, em 1970, quando um jogador ser excluído da partida era raridade, Daison acumulou doze das suas dezoito expulsões na carreira – somente no insano 1964, foi mandado aos vestiários mais cedo em quatro ocasiões. João, o irmão mais novo, fora convidado a se retirar sete vezes. Daison não admitia desrespeito. Matou um cusco, bateu em criança, e certa vez destruiu com uma joelhada a coluna do argentino Nestor Scotta, do Grêmio, ao vê-lo cuspir na área do Gaúcho.

O lendário zagueiro chegou a tentar a sorte no Rio, de onde foi mandado embora por bater demais nos atacantes durante os treinos. Construiu sua fama em Passo Fundo. Estimulou a mística varonil da cidade, sendo suspenso do futebol por tudo o que um jogador poderia imaginar. Doping incluído. Em 1974, insultou o árbitro José Luiz Barreto após a marcação de um pênalti contra seu time, e ouviu do apitador que, se os dois se encontrassem fora de Passo Fundo, o cartão vermelho subiria para Pontes. “Se me expulsar, te quebro a cara”, respondeu Daison, que fez mais: prometeu só parar depois de atorar um árbitro.

Semanas depois, Daison e Barreto se reencontraram em Santa Maria, num jogo do Gaúcho contra o Inter local. O juiz cumpriu a promessa. O beque, também. Foi a última expulsão da carreira de Daison, que, pela agressão, mergulhou numa suspensão de um ano e meio antes de voltar a vestir a camisa verde de seus amores. A mesma camisa verde que sumira dos gramados sulinos depois de 2007, quando o Gaúcho perdeu na Justiça o caldeirão diabólico que era o estádio Wolmar Salton. É por não ter recuperado ainda sua cancha que o Gaúcho está mandando suas partidas na cidade de Marau. É por acreditarem que o clube é grande demais para permanecer inativo que seus dirigentes decidiram retomar o futebol profissional.

E é por saber que sua palavra permanece sendo lei que Daison Pontes decretou, à beira do campo, antes do duelo de domingo: aquele jogo contra o Esporte Clube Passo Fundo, o Clássico Ga-Pas, só poderia ser do Gaúcho.


A pequena Marau dista de Passo Fundo pouco mais de trinta e cinco quilômetros e não tinha qualquer perspectiva de observar no seu estádio algo de futebol profissional. A própria arquitetura do campo, duas arquibancadas nos cantos da relva com um PRÉDIO para a imprensa atrapalhando toda a visão no centro, evidencia o pouco costume do projetista em frequentar estádios de futebol. Pouco tempo atrás, a escassa chance de Marau contar com jogos envolvendo esportistas pagos equivalia às reduzidas perspectivas passo-fundenses de ver suas equipes de volta à ativa.

Há um ano, nem Passo Fundo e nem Gaúcho tinham equipes montadas. O Passo Fundo foi o primeiro a se mobilizar. Tido pelo conhecimento popular e exaltado nas faixas da torcida como o sucessor do velho alvirrubro citadino, o 14 de Julho, o clube na verdade surgiu como uma fusão destes com o próprio Gaúcho, em 1986. Os alviverdes desistiram daquilo um ano depois, e o Esporte Clube Passo Fundo, que se iniciara tricolor – verde, vermelho e branco -, passou a se assumir como o novo 14, usando apenas o rubro e o alvo. Em 2009, o clube imaginava estar voltando sozinho para a atual temporada, e apresentou um fardamento novamente tricolor.

Mas o Gaúcho, meses depois, disse que não estava extinto como se pensava. Trazia no coração, bem vivas, umas línguas de fogo de rivalidade, que queimavam o ar pelas palavras de seus comandantes. Preferiam Marau, diziam eles, porque mandar jogos no estádio do rival, o Vermelhão da Serra, atormentaria seus pensamentos até o último suspiro de suas existências. Em Marau, o Gaúcho vende ingressos não em bilheterias, mas nas vias de acesso ao campo. A estrada conduz ao Estádio Carlos Renato Bebber, que assim se chama para homenagear um jovem morto eletrocutado naquela zona – talvez por não terem pego o espírito da coisa, no domingo alguns sujeitos podiam ser flagrados empinando pipas nas cercanias da cancha, perto da rede elétrica.

A torcida do Passo Fundo, com seus trapos bradando “14 de Julho” e “Felipe – é gol”, foi colocada do lado DE FORA do estádio, atrás de uma das goleiras, pagando ingresso para mirar o duelo através do alambrado. Na Segundona Gaúcha, o estatuto do torcedor tem o mesmo valor das bobinas que as torcidas utilizam – pode ser atirado no campo e esquecido. Os aficionados tricolores se encaminharam até um dos dois lances de arquibancada do Carlos Renato Bebber e reclamaram que, no Vermelhão, não haviam deixado ninguém assistindo ao combate sobre coxilhas de terra vermelha. No setor já estavam postados alguns torcedores do Gaúcho, mas a entrada dos apoiadores do Passo Fundo foi permitida. Não se registraram incidentes mais graves que insultos às mães alheias.

Em campo, o duelo já contava quase todos os quarenta e cinco minutos iniciais e pouco, muito pouco, merecera análises aprofundadas dos comentaristas das rádios passo-fundenses. O Clássico Ga-Pas de número CATORZE (só), o primeiro disputado fora de Passo Fundo, teve sua metade de abertura com muitos carrinhos, outro tanto de passes errados, e dois goleiros exercendo funções semelhantes às de quem estava nas arquibancadas: olhar o resto do time correr e gritar para empurrar. A partida se resumia ao espaço entre as duas intermediárias. Luciano, o goleiro do Passo Fundo que só fora ameaçado uma vez até o intervalo, declarava com enfaro ao sair de campo: “que jogo bem ruim, não acontece naaaaaaada” – com a profusão de vogais notável.

O técnico Bebeto Rosa preferiu manter os tricolores no clima da cancha. Levou sua lousa para a frente da casamata e, com os jogadores sentados no banco de reservas, dedicou-se a fazer as correções que julgava necessárias e a discorrer sobre as entradas violentas, os passes certeiros, os amores, e todas essas coisas que transformam homens comuns em campeões. Tendo suas frases entrecortadas pela batucada da torcida do Gaúcho no teto da casamata, Bebeto viu como seus comandados pareceram entender a ordem. O Passo Fundo teve seus melhores momentos nos primeiros minutos depois do apito de reinício do árbitro, castigando a trave do Periquito aos 65 minutos, através de Fabiano Diniz.

O segundo tempo estava definitivamente mais movimentado. Paulo Roberto, tricolor, bateu cabeça com o adversário Didi, caiu no chão tendo convulsões de dor e sangrou litros. Em algum canto do estádio, o saudosismo de Daison Pontes deve ter aumentado um pouco mais. A ambulância amassou a relva para levar Paulo Roberto até o hospital mais próximo, e os torcedores do Passo Fundo seguiam ocupados demais ovacionando seu gladiador caído para perceber que, depois da paralisação, o jogo foi mais e mais do Gaúcho.

Naquela equipe de verde havia um zagueiro que em toda a tarde não conheceu o erro. E um capitão capaz de vibrar pela menor vitória simbólica obtida em campo. Baggio e Paulinho. O Ga-Pas começou a inverter sua tendência por causa deles. Baggio e Paulinho, sob influência das palavras infalíveis de Daison, derrubaram a parede de seus limites para colocar o Gaúcho um pouco mais sonhador, um pouco mais pegador, e totalmente vencedor. E aos 82 minutos, num cruzamento à área, foi o baixo Guinho quem se esticou para cabecear e caiu se enroscando nas redes para fazer o 1 a 0 do Periquito, mas foram Baggio e Paulinho os que mais vibraram.

A partida se estendeu até os 90+8 minutos, em função da ambulância e das paradas para beber água. Mas o Passo Fundo não conseguiu recobrar seu rumo. No quinto minuto de acréscimo, quase lamentou o segundo gol contrário, numa esfera que se esmagou no travessão. O Gaúcho venceu o clássico. O Gaúcho, que por três temporadas permaneceu fechado, enterrado, e dado como morto, garantiu a classificação com os pontos ganhos sobre o maior rival. “O Gaúcho não vai morrer nunca”, declarou um eufórico dirigente, com a satisfação que só conhece quem já perdeu uma paixão e a reconquistou.

Aos poucos os torcedores iam tomando a estrada, deixando as dependências do estádio e engarrafando as vias que abandonam Marau. Na onda de otimismo, com o mesmo olhar feroz que tantos ossos trincou e um porte físico digno de fardar e entrar em campo apesar dos setenta invernos que pesam sobre as costas, Daison Pontes chegou a afirmar que não tem dúvidas de que o Gaúcho ainda vai recuperar seu estádio em Passo Fundo. E se Daison diz…

Maurício Brum“