sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Canções para um velho Gaúcho

Reportagem: Iuri Müller e Maurício Brum
Texto: Maurício Brum

“O que vocês querem com o Gaúcho? O clube está morto!”. Do outro lado da linha, em alguma redação passo-fundense, não foi com palavras medidas por pena que o jornalista daquelas bandas disse isso. Falou com a naturalidade de quem chega estapeando um balcão de bolicho e pede o de sempre. O passo-fundense deve ter até se indignado ao ver que alguém levava a sério os projetos de retorno de um clube sem estádio e com o departamento de futebol fechado. Pois levamos. E o mais importante: contra a POUCA FÉ dos periódicos locais, o Gaúcho acredita nos seus próprios planos.


Quando encontrar
Nos atalhos desta pampa
Tropas vendidas, 
Seduzidas por vinténs,
 
Lembra guri:
 
Nem que o mundo venha a baixo,
 
Jamais entregues

A querência pra ninguém [1]

Aquele Gaúcho fundado em 1918. O primeiro quadro a aceitar negros em Passo Fundo. O mais querido da cidade. O clube que jogou por vinte anos no campinho da Montanha, passou outros vinte noutra praça e, num esforço coletivo, retornou em 1958 ao terreno original para erguer seu templo, o Estádio Wolmar Salton. O Gaúcho dos irmãos Daison e João Pontes, a dupla defensiva mais violenta – leia-se gloriosa – que já pisoteou essas coxilhas. O time em que Bebeto, o Canhão da Serra, se fez rei e empilhou gols até quase os quarenta anos de idade. O primeiro clube do Norte gaúcho a atuar na elite do campeonato estadual na era moderna – e na antiga. O tricampeão da Segundona, dono das taças de 1966, 1977 e 1986.



Por isso, quando se encontra
No espelho fundo de si
Ouve o tempo debochando
Bem-te-vi
Já te vi bem
Já te vi bem
Bem-te-vi [2]
Mas a verdadeira catástrofe ocorreria na parte final do ano. Incapaz de arcar com as dívidas de indenização a um jovem que ficara tetraplégico após um acidente nas piscinas do clube em 1996, o Gaúcho foi obrigado pela Justiça a leiloar o Estádio Wolmar Salton para obter os fundos.

A própria família do jovem adquiriu o estádio. Queria revendê-lo imediatamente para a Wal Mart, essa FIRMA com COMPULSÃO por acabar com antigos campos de futebol. No entanto, uma medida tomada pela Prefeitura um dia antes do leilão não deixou o negócio ir adiante: o Wolmar Salton havia sido tombado como patrimônio de Passo Fundo. Enquanto se tentava definir o que era estádio e o que não era – ou o que estaria protegido e o que poderia ser demolido –, a Wal Mart anunciou que só adquiria o terreno se fosse a área inteira. O Gaúcho tentou reverter o leilão. Os compradores, o tombamento. A causa do clube é defendida por advogados que trabalham de graça, e o BRUXULEIO nos tribunais segue até hoje. Como resultado, o fim do profissionalismo alviverde.

Só restou desta lenta agonia
Distorcidas e mortas visões
Das peleias, teatro e poesia
E os arpejos de tristes violões [3]

Como disse o desinteressado repórter passo-fundense, aquele Gaúcho estava mesmo morto. Abandonado, o decadente estádio era a imagem sem necessidade de legendas, a bem-pintada AQUARELA de um clube tradicional caído. Paredes sujas, marcadas por PICUMÃ, velhos escritórios invadidos por sem-tetos atrás de abrigo. O gramado alto, sem ver um corte há tempos, e os cantos onde houvera marca de cal tomados por uns capins cuja vontade explícita era a de serem CAPÕES. Recentemente, denunciaram os jornais, pedaços do Wolmar Salton estariam sendo surrupiados por dependentes químicos que veriam nos metais e nos concretos o sustento do seu VÍCIO. Os torcedores, os de verdade, acompanharam tímidas notas falando sobre a provável volta da equipe. Diante daquele gigante despedaçado que era o estádio onde tantas vezes gritaram, questionavam-se uns aos outros sobre como crer no retorno.

Sopram ventos desgarradosCarregados de saudade 
Viram copos, viram mundos
 
Mas o que foi
 
Nunca mais será
 [4]

A temporada atual abriu-se com o Gaúcho de volta aos campos. Não o profissional. E nem sozinho. Numa das raras medidas LÚCIDAS da Federação Gaúcha, uma PROTEÇÃO às equipes de peso histórico, a inscrição de quadros novos nos torneios estaduais de base encontra uma série de barreiras. Não raro, é preciso que as escolinhas, que botam em campo todos os seus jogadores, peguem emprestado o nome de algum clube já filiado à FGF. .

A liberdade não tem tempo nem fronteiras
O homem livre não verga, não perde o entono 
Vai repetindo a todos num velho grito
 
Passam os tempos, mas a terra ainda tem dono

2 comentários:

  1. quem quiser na integra essa reportagem clicar no google ``para um velho ``, é bem legal e sem cortes.

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  2. CORREÇÃO,digitar no google CANÇOES PARA UM VELHO GAUCHO

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