sábado, 12 de março de 2011


A noite das mariposas

09/03/2011
A cidade está escura, agora. Anoiteceu em Passo Fundo e, no abandono do Estádio Wolmar Salton, o negro da atmosfera é ainda mais pesado. Há quatro anos, as noites do colosso lacrado do Bairro do Boqueirão recebem sinfonias de grilos que saltam livremente entre uma touceira e outra. A luminescência intermitente que você vê despontar no meio do mato cerrado – que um dia foi campo de jogo – é a de um vaga-lume, desconcertado com a quietude do local. Não tem havido luz, ali, nesses quatro anos desde que o Gaúcho foi despejado de sua casa – e as mariposas atraídas por refletores não voavam mais para ver o alviverde mandar um encontro em Passo Fundo. Até a sexta-feira de Carnaval de 2011.
Na noite em que o Gaúcho voltou à sua cidade, ainda fora do Wolmar Salton, o vento que soprava frio aconselhava as meninas de pouca roupa a encontrarem álcool e romance para superar a primeira madrugada carnavalesca, rodopiava para assustar o índio mais desprevenido que saíra de casa metido numa regata, e se dissipava sobre o fervor do Vermelhão da Serra. Na noite em que o Gaúcho voltou à sua cidade, entrou em campo como mandante de um jogo na cancha do rival e sua torcida ocupou os lances de arquibancada destinados aos locais, encimada por mariposas saudosas. Assim será por toda a Segundona, talvez sem as mariposas nos jogos diurnos, neste ano que traz o regresso do alviverde a Passo Fundo depois de duas temporadas fechado e outra em Marau.
Mas na sexta-feira passada, ser local no Vermelhão da Serra e quebrar quatro anos de orfandade ainda tinha uma ironia fina: a estreia do Gaúcho “em casa” foi justamente contra o Passo Fundo. Espremidos com algum rancor na curva que vai dar atrás de uma das goleiras, canto sempre reservado à torcida visitante, os apoiadores do time vermelho sorririam no fim da noite com a vitória. O um a zero nasceu de um passe errado da defesa do Gaúcho, uma interceptação de Sertão e um toque certeiro para Piccinini, sem marcação num raio de quilômetros, açoitar com o gol a liberdade de sonhar dos alviverdes. Isso foi no segundo tempo, na altura do décimo minuto, e qualquer coisa que se diga sobre o Gaúcho ter duas derrotas em duas rodadas e confirmar expectativas negativas encontra oposição nos fatos.
O clássico Ga-Pas foi parelho dentro de campo como não pode ser fora dele. Em melhor situação financeira, o Passo Fundo tem no elenco jogadores que há um ano posavam nas fotos do rival desacreditado. Alguns nomes receberam propostas de salário quatro vezes maior do que o Gaúcho conseguiria pagar batendo a cabeça no teto de suas condições. Sem dinheiro para muitas soluções alternativas, a pequena diretoria precisou lançar desafios aos jogadores cogitados. O bom goleiro Anderson, por exemplo, só vestiu a 1 do Periquito na sexta-feira e parou as investidas rubras porque muito antes concordou com os termos que lhe sugeriram – só receberia se alcançasse a vaga de titular. Ascendeu ao posto de arqueiro principal e hoje ganha os religiosos seiscentos reais determinados como limite individual na folha de pagamento do clube.
Para equilibrar as chances criadas e o futebol apresentado no clássico, os de verde e branco precisaram de mais sacrifícios. Pediram o adiamento do jogo marcado inicialmente para quarta-feira, perdendo público e renda para as farras de Carnaval, mas dando tempo para que algumas inscrições de atletas fossem regularizadas pelos boletins informativos necessários. Na rodada inaugural, a lentidão da burocracia obrigou o Gaúcho a alistar para a guerra oito jogadores da base e o time caiu por 3 a 2 para o Riopardense num embate de muitos caminhos. O Avenida, considerado o time mais forte da chave antes da largada do campeonato, aguarda em Santa Cruz do Sul para a próxima partida.
Em geral, projeta-se a recuperação do Gaúcho partindo da quarta rodada – restarão então nove duelos, dois terços deles em Passo Fundo. Até aqui, o time é lanterna da chave e seria rebaixado. Os resultados, contudo, são secundários no momento do clube. O projeto de sobrevivência do Periquito independe da divisão, apesar das dificuldades que seriam aumentadas, e não fazia sentido temer a Terceirona com o futebol daquela sexta-feira. Após a derrota magra para o rival, o presidente Gilmar Rosso apontou as arquibancadas ainda cheias de torcedores que agora se dirigiam para a saída, e disse: “isso é uma vitória”. A seguir, pediria para repórteres locais fotografarem a placa do Banrisul atrás da goleira, como prova de que estivera lá mesmo – exigência desconfiada da FGF para repassar as verbas de patrocínio.
A vitória do Gaúcho foi voltar para Passo Fundo. Estar novamente nos braços dos seus torcedores. E uma olhadela rápida para as arquibancadas entre um e outro carrinho dos seus representantes mais aguerridos revelava a importância disso. Havia um sem-número de meninos e meninas na torcida alviverde. Crianças pequenas demais para entender qualquer coisa de futebol em 2007, quando o clube perdeu o Wolmar Salton e fechou – e que não teriam contato com o Gaúcho se ele permanecesse apagado. Talvez elas nunca se lembrem com exatidão que estiveram no Vermelhão da Serra na noite de 4 de março de 2011, mas saberão que foram carregadas para lá por algum familiar que vira o Gaúcho antes. E só entenderão o que é ser alviverde se forem tocadas pela paixão neste momento da vida.
É uma sucessão complexa e infalível de pequenos fatos. Não se trata de borboletas que batem asas numa parte do mundo e provocam furacões do outro lado do globo. Mas, enquanto mariposas baterem suas asas sobre um campo onde jogar o Gaúcho, é certo que logo abaixo haverá uma bandeira alviverde tremulando na mão de um guri. E aí, haverá também futuro.
Aqui, mais fotos.
Hay que llenar el corazón,
Maurício Brum

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